Começou muito mal

A História se submete a revisões. No Brasil não é diferente. Uma sensação que parece resistir e ganhar força é a de que a instauração do governo republicano está longe de representar uma escolha feliz.

Dir-se-á que o Império tupiniquim ostentou duração excessiva. D. Pedro I reinou de 1822, na verdade 1824, até sua abdicação em 1821. O período da Regência foi tumultuado, tanto que em 1840 entregou-se o comando da Nação a uma criança de 15 anos. Que esteve à frente do Brasil até o fatídico 15 de novembro de 1889.

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Foi um acerto a expulsão do Imperador e da família real da Pátria que tanto amaram? À evidência, esse foi o primeiro crime da República, talvez o seu pecado original.

Mas o que aconteceu depois, visto à distância por fiéis seguidores do Imperador destronado, ajuda a enxergar melhor o período que hoje se costuma chamar “Primeira República”.

André Rebouças, nunca louvado pela História à altura de seu merecimento, foi um desses leais companheiros do governante banido. Em 9 de dezembro de 1891, registra a primeira notícia da morte de Pedro II, a quem chama “Imperador Mártir”. Lembra que, ao chegar a Lisboa dois anos antes, em 7.12.1889, ele dissera: “Eu fui sempre um imperador violentado”. E completa: “Morreu violentado pela mais hedionda das violências: a da hipocrisia teocrática-jesuítica, que mata atrás da Igreja da Madalena com missa e confissão no quarto de um moribundo! O Imperador podia dar benção a todos os Papas, Ele que aboliu a Pena de Morte, quando os Papas, reis de Roma, encetavam o carnaval, matando condenados com todos os requintes. Ele que aboliu a escravidão no Brasil, estando o Papa em perfeita ignorância até das Pastorais dos bispos abolicionistas da última hora”.

Desconte-se a irresignação com a postura da Igreja, que chegou a ter e a comerciar escravos e que – instituição humana – está longe da incolumidade em relação a equívocos. Mas a covardia dos que derrubaram o Imperador e o fizeram sair escorraçado do Rio onde nasceu e viveu mais de meio século, é algo que estigmatiza a República Brasileira.

Espírito altaneiro, superior, da nobreza que não é do sangue azul, mas um caráter d’alma, Pedro II deixou seus 60 mil livros como doação para a Biblioteca Nacional. Já àquela altura questionava-se se a oferta se viabilizaria por falta de espaço. André Rebouças sugere os edifícios dos conventos da Lapa e da Ajuda, lembrando que a Biblioteca Nacional de Lisboa instalou-se no velho convento de São Francisco e em Roma o Correio e quase todas as repartições públicas estão em conventos.

Os tropeços dos primeiros anos republicanos e a sucessão de fatos que chegam até o século 21 podem ajudar a que os contemporâneos formem sua convicção sobre o acerto de se trocar a Monarquia pela República nesta sofrida terra brasileira.

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.

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